Eu tenho a estranha mania de achar que todos os objetos contam histórias.Principalmente imagens. Pinturas e fotografias que não têm outra alternativa a não ser a de ficar calados esperando alguém que conte a história.
Uma pintura em particular sempre me interessou. Durante muitos anos entrei por aquela porta, dei alguns passos e na primeira parede à esquerda, lá estava ela.
Uma menina que segura uma tigela branca.
Me recuso a acreditar que seja apenas isso…uma menina que segura uma tigela branca. Embora o artista que tenha pintado este quadro tenha provavelmente dado um título semelhante. “Menina com tigela”.
Olhando para a fotografia que tirei do quadro, começo a imaginar o que realmente se passa ali.
Pela roupa e pelo corte de cabelo, a história da menina se passa no início dos anos 20.
Uma menina, sentada em uma cadeira que está colocada em uma varanda, pois vejo uma folhagem.
A varanda é de uma casa brasileira, em algum mês quente. Mas a menina loira e branca é filha de estrangeiros.
Seu nome é Josephine e está segurando uma tigela vazia, ou quase vazia. Durante anos tentei desvendar a expressão em seu rosto infantil. Acredito que esteja aborrecida com alguma coisa. Seu olhar é baixo, mas os olhos ainda estão abertos. Portanto, não está dormindo. As crianças que dormem têm uma expressão de paz no rosto. Josephine está aborrecida.
Sua babá inglesa lhe preparou um mingau insosso, o qual terá que terminar para que vá brincar no quintal. Sempre uma condição. Sempre um senão.
Pelo que vejo, na tigela branca também há um talher. Provavelmente é uma colher. A colher repousa inanimada. Josephine não tem fome, não quer comer o mingau de aveia com gosto de babá inglesa. Ela quer brincar no quintal onde o sol das onze horas da manhã bate choroso.
Falta pouco, mas Josephine não consegue terminar o mingau. Seus braços magrinhos indicam que não é uma criança que goste muito de comer. Josephine gosta de brincar com suas bonecas de pano que aguardam o término do mingau-sem-fim.
A interpretação desta pintura fica vagando na miha cabeça sem ter muita solução. No meio do caminho, eu mudo de idéia.
Josephine já comeu seu mingau e já não tem fome. Está triste porque agora pensa nos pobres que nada têm para comer.
Ou então, naquela tigela havia um pudim maravilhoso, delicioso, um pedaço do céu. Algo tão sublime que quando termina nos deixa tristes.
Mas então eu penso: não se come pudim em tigela.
Vou deixar a história assim por enquanto. Como não sei o nome do quadro, dei o título de “Sangue e Pudins”. Esse é o titulo de uma música do Fagner, cantada pela Simone. Vi a faixa no disco e resolvi ler a letra.
E a letra nada explica sobre sangue ou pudins.
É como esta pintura. A menina não explica porque está aborrecida.
E pra falar a verdade, acho que não quero saber.
Cada um sabe do mingau que tem na própria tigela.
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