Quem trabalha com criação sabe muito bem o que é cliente.
E que não existe apenas um tipo de cliente. Vejamos quais são eles:
1. O Cliente Prático
Quanto te contrata, traz referências e exemplos do que ele precisa. Em uma semana o trabalho está pronto e bem-resolvido. Paga na data combinada e não discute. Essa é uma espécie muito rara de cliente. Diria que está em extinção, infelizmente.
2. O Cliente Indeciso
Traz referências e sabe o que quer, mas pede a sua opinião o tempo todo. Quando finalmente decide e o trabalho está prestes a ser concluido, ele tem um insight no chuveiro, ou a filha de 5 anos dá uma opinião e lá se vão semanas de trabalho pra lata do lixo. Essa espécie de cliente é a mais comum. E está espalhada pelo mundo, não há como fugir.
3. O Cliente Desconfiado
Já na contratação fica perguntando: "Mas e se eu não gostar do seu trabalho?" ou " E se não sair do jeito que eu quero?" Ao serem apresentados os primeiros layouts, começa a enchurrada de perguntas: "Não tá muito parecido com o concorrente?" ou "Essa imagem não vai dar problema com os direitos humanos?" ou "Vamos ser processados porque a cor do produto não é exatamente essa?" ou pior: "Será que vão roubar nossa idéia?". Essa espécie de cliente requer que você estude muito bem os argumentos antes de apresentar o layout. É um trabalho conjunto de designer e advogado numa só pessoa. Pelo mesmo preço, óbvio.
4. O Cliente Pobre
Na reunião mostra toda a linha de coisas que quer fazer. Logomarcas, embalagens, PDV e anuncios. Muito entusiasmado porque o produto dele é fantástico e vai vender como água no deserto. Depois de passado o briefing, ele diz: "Então...eu adoraria fazer isso tudo com você. Mas não tenho dinheiro! Dá pra fazer de graça?". Essa espécie de cliente a gente adoraria que sumisse do mapa, mas infelizmente, é uma praga sem remédio.
5. O Cliente Enganador
Depois do briefing passado e de alguns dias de trabalho, o cliente olha para seu trabalho e diz todo animado: "Nossa, ficou lindo! Era isso mesmo que eu queria!! Parabéns!" Passam-se dez segundos e ele arremata: "Só troca essa letra por uma mais gordinha e muda essas cores pra algo mais alegre. E coloca também um desenhinho aqui...daí fechamos!". Essa espécie de cliente está aí pra provar que alegria de designer dura pouco.
6. O Cliente Mau
Depois de uma reunião extremamente longa e detalhada, o trabalho parece que vai nascer sem nenhum esforço. Afinal, o cliente explicou muito bem tudo que ele queria, timtim por timtim. Apresentados os vinte layouts, vem o veredito: "Não gostei de nada. Quero mais opções." E você quase querendo sentar e arrancar os cabelos, diz muito educadamente: "Você por gentileza, poderia dizer em qual direção quer seguir, ou se quer alguma coisa diferente disso?" E ele, categórico: "Não sei. Só sei que não é isso que eu quero." Essa espécie de cliente anda disfarçada de Cliente Prático. Mas na hora do bote, tira a camuflagem. Lobo em pele de cordeiro. Cascavel. Exu. E por aí vai.
7. O Cliente Carente
No mesmo dia já ligou três vezes pra saber como vai indo o trabalho, se a gente precisa de mais alguma referência. Tem algumas alterações pra fazer, mas faz questão de vir até a agência e sentar bem pertinho do designer pra acompanhar as mudanças. Além de ficar colocando o dedo na tela do seu iMac, emporcalhando tudo. Vai embora e dali a 20 minutos liga de novo pra dizer que adorou trabalhar junto, e quer marcar outra reunião. Essa espécie de cliente é bem mais comum do que se imagina. De cara já da pra perceber que é um grude. Pior: gosta de ficar amiguinho do atendimento. E sem poder fazer nada, o atendimento é obrigado a almoçar, jantar e tomar cafezinho com o cliente. O tempo todo.
8. O Cliente Tadinho
Se tem um cliente que eu morro de pena, é o tadinho. Geralmente é alguém pequeno, que está começando um negócio, mas tem a perfeita noção de como fazer as coisas direito e procura os profissionais especializados para isso. Tem uma verba (contada, mas tem), é extremamente educado, pede por favor e diz obrigado mil vezes. Deposita todas as suas expectativas no pobre designer, que invariavelmente fica com cara de caneca diante de tanta gentileza e amabilidades.
O designer, por sua vez, lotado de trabalho e sem nenhuma paciência no final da semana, rabisca qualquer coisa e manda por email pra ele ver. Daí vem o golpe mortal. O cliente liga radiante de felicidade e diz que adorou tudo, que a agência é a melhor do mundo e que vai fazer o pagamento imediatamente e ainda mandar um presentinho de agradecimento. É nessa hora que o designer chora arrependido. Essa espécie de cliente é muito rara, e se achada e detectada com antecedência, merece tratamento de rei.
9. O Cliente Louco
Ele começa a reunião contando todas as histórias de doença na família. Pergunta dez vezes quem é o atendimento e quem é a criação. Acha o portfólio da agência muito bom e pergunta: "Mas como é que vocês fazem isso?" Passado o susto do primeiro encontro, vem as correções no layout. Geralmente são coisas mirabolantes, disparadas rapidamente e sem dó: "Então... pega a foto dessa mulher, troca a cabeça, pega a mão da outra e coloca uma maçã no lugar."
A gente faz, fica visivelmente um Frankstein. Assassinato em Photoshop. Ele olha, olha, olha e diz: "Mas não parece que ela tá voando? Coloca um chão aqui!". Aliás, tudo pro cliente louco tá voando. Uma pêra mal posicionada parece um anãozinho barrigudo e a logomarca parece que está esmagando a pessoa na foto. Todas as coisas tem que ter o seu tamanho real e tem que estar apoiadas em alguma coisa. E o pior de tudo: "Pagamento? Eu já não te paguei??". Essa espécie de cliente sofreu uma mutação genética não identificada. Fique longe.
10. O Cliente Burro
No primeiro contato com esse cliente é importante explicar o que você faz muito bem explicadinho. Você diz: "Nós fazemos design de embalagens" e ele replica: "Vocês fazem caixa de papelão?" ou "Vocês desenham e imprimem também?" ou "Mas a sacola vocês também fazem?". Não tente explicar nada sobre softwares. É uma luta em vão. Risque do seu vocabulário as palavras Pantone, Reserva, Faca Especial e Mock-Up. Se ele não entendeu ainda o que você faz e como você trabalha, comece a explicação pelo Big Bang do Universo. E boa sorte. Essa espécie de cliente é uma sub-raça que deveria estar fazendo qualquer outra coisa, menos conversando com você.
Em nome de todos os profissionais de Criação e Atendimento, esse foi o meu desabafo.
Em especial para Silvia, minha irmã, sócia e Atendimento:
"SHE WORKS HARD FOR THE MONEY"